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Bougainville: o arquipélago rumo à independência entre a Papua-Nova Guiné e as Ilhas Salomão

Pessoa com manta colorida observa lagoa azul rodeada de vegetação tropical e montanhas ao pôr do sol.

Entre a Papua-Nova Guiné e as Ilhas Salomão há um arquipélago que quase nunca aparece nos roteiros de viagem - e é precisamente isso que, em breve, deverá mudar. Bougainville, até agora uma região autónoma da Papua-Nova Guiné, prepara-se para dar o passo para a independência plena. Quem viaja para lá hoje encontra não só um Pacífico Sul pouco tocado, mas também um território que, de forma visível, se aproxima do nascimento de um novo país.

Um arquipélago a um passo da independência

O futuro país de Bougainville é composto por uma ilha principal e vários ilhéus mais pequenos, somando cerca de 300.000 habitantes. As comunidades falam línguas locais, tok pisin e inglês, usam a kina como moeda e vivem, em grande medida, de agricultura de subsistência, algum sector mineiro e comércio limitado.

Em 2019, um referendo deu um resultado esmagador: 97,7% dos votantes escolheram separar-se da Papua-Nova Guiné. Desde março de 2025, existe um horizonte concreto: a 1 de setembro de 2027, Bougainville deverá proclamar oficialmente a sua soberania - tornando-se, muito provavelmente, o 194.º Estado do mundo.

"A Constituição já está desenhada, as instituições estão a nascer, e a bandeira do futuro Estado já hoje ondula em muitos lugares."

Ao mesmo tempo, decorre a parte mais delicada: negociações com o governo em Port Moresby, criação de uma administração própria e definição de bases financeiras sustentáveis. Ainda assim, no terreno sente-se uma confiança discreta. Não há manifestações em massa; há, antes, trabalho concentrado num projecto ambicioso - um Estado que pretende, desde o primeiro dia, aprender com os conflitos do passado.

Herança do nome e cicatrizes da guerra

O nome do arquipélago vem do século XVIII e do navegador francês Louis-Antoine de Bougainville. Em 1768, atravessou estas águas sem ali permanecer por muito tempo. Depois disso, a região ficou, em grande parte, fora do radar internacional. Ao longo do século XX, o território foi marcado por domínio colonial, interesses ligados à mineração e uma fase sangrenta de lutas pela autodeterminação.

Nos anos 1990, a ilha foi palco de uma guerra civil, centrada sobretudo numa das maiores minas de cobre da região. Dezenas de milhares de pessoas morreram, as infra-estruturas colapsaram e muitos povoados ficaram destruídos. O conflito deixou Bougainville praticamente isolada do mundo exterior.

Foi também essa distância que impediu o turismo de ganhar tração. Em folhetos de grandes operadores, o nome raramente aparece. Para os habitantes, isto é simultaneamente fardo e vantagem: menos rendimento, mas maior capacidade de decidir o que querem - e não querem - permitir nas suas ilhas.

Praias sem espreguiçadeiras, recifes sem GoPro

Viajar hoje para Bougainville é encontrar a paisagem do Pacífico Sul tal como a imaginação a pinta - mas sem cadeias de resorts nem caça a “spots” de Instagram. A ilha principal estende-se por quase 200 quilómetros, atravessada por cadeias vulcânicas e rodeada por lagoas com recifes de coral rasos.

Arovo Island e as lagoas silenciosas

A sul, Arovo Island atrai com areia branca e água transparente. Aqui, mergulho e snorkelling parecem inevitáveis - só que quase não há infra-estrutura. As formações de coral começam logo à frente da costa, muitas delas totalmente intactas. Cardumes coloridos de peixes de recife, tartarugas e, por vezes, tubarões de recife percorrem a zona - muitas vezes sem um único mergulhador por perto.

Espreguiçadeiras, bares de praia, lanchas rápidas? Nada disso. Quem se desloca por aqui embarca em canoas tradicionais com balancim ou em barcos a motor simples dos locais e dorme em guesthouses básicas ou pequenas lodges.

Vida de mercado em Buka

O centro político e económico é a pequena cidade de Buka, na ilha vizinha do mesmo nome, a norte. A vida concentra-se no mercado: sob o telhado da praça, amontoam-se raízes de taro, inhame, chuchu, cocos e noz de bétele. Negocia-se sobretudo em tok pisin, há muitas gargalhadas, e os visitantes ainda se destacam claramente como raridades.

"Buka parece uma cidade portuária no fim do mundo - barulhenta, caótica, calorosa e surpreendentemente pequena."

Entre a ilha principal e Buka fica a estreita Buka Passage, um canal marítimo que se cruza num pequeno “banana boat”, um barco a motor comprido e estreito, por algumas kina. Horários fixos quase não existem: parte-se quando há gente suficiente a bordo.

Vulcões que tingem o céu

No centro de Bougainville ergue-se o vulcão Bagana, com cerca de 1.750 metros de altitude. Desde o ano 2000 que praticamente não deixa de fumar. É considerado um dos vulcões mais activos da Melanésia, a região do Pacífico que inclui também Vanuatu e as Ilhas Salomão.

Com frequência, rios de lava descem as encostas, enquanto nuvens de enxofre sobem diariamente. As vertentes são íngremes e instáveis, cobertas por camadas recentes de cinza. Mesmo vulcanólogos experientes evitam a subida: o risco de deslizamentos de terra ou de erupções súbitas é demasiado elevado.

Em julho de 2023, o Bagana lançou cinza a grandes altitudes. Aldeias na direcção do vento tiveram de beber água de cocos até os rios voltarem a clarificar. Episódios assim mostram até que ponto natureza e quotidiano estão entrelaçados na ilha.

Billy Mitchell - vulcão com coração turquesa

Quem prefere uma experiência mais tranquila tende a escolher o Mount Billy Mitchell. Este vulcão é visto como bastante mais pacífico e guarda, na cratera, um lago de cor turquesa intensa, a mais de 1.000 metros de altitude. A caminhada atravessa floresta tropical densa e, em grande parte, pouco mexida. O percurso é duro, mas não exige técnicas de escalada.

  • Altitude: cerca de 1.540 metros
  • Particularidade: lago de cratera num turquesa intenso
  • Envolvente: floresta tropical primária com elevada biodiversidade
  • Dificuldade: trilhos longos e húmidos, mas sem passagens de escalada

Lá em cima, abre-se a vista para um lago quase perfeitamente circular, rodeado por verde compacto. Não há centro de visitantes, quiosque ou corrimões - apenas vento, nuvens e água.

Paraíso para fãs de aves

Bougainville é um destino de sonho para ornitólogos e para qualquer pessoa com binóculos. De acordo com o conhecimento actual, a ilha alberga 98 espécies conhecidas de aves terrestres. Doze dessas espécies existem apenas aqui.

Entre elas está o marcante “martin-pêcheur moustachu”, uma espécie descrita, em termos gerais, como um guarda-rios de plumagem viva, com uma faixa azul-violeta evidente que vai do bico até à nuca. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), poderão existir apenas algumas centenas de exemplares. Cada observação é um pequeno acontecimento.

Nas copas das árvores surgem outras espécies endémicas: um melífago que se alimenta de néctar, uma espécie de corvo exclusiva do arquipélago e um pássaro cantor característico com marcação escura na cabeça. Ao pôr do sol, grandes colónias de raposas-voadoras - localmente muitas vezes entendidas como morcegos - atravessam, com um ruído de folhas, plantações de coco e mangais.

"A maior riqueza de Bougainville vive no ar - colorida, barulhenta e, até hoje, registada de forma sistemática por poucos investigadores."

Viagem ao fim das rotas habituais

Chegar da Europa a Bougainville é um percurso longo e com várias etapas. Normalmente, começa com um voo de longo curso via grandes hubs asiáticos até Port Moresby, a capital da Papua-Nova Guiné. A partir daí, segue-se em voos domésticos para Buka ou, ocasionalmente, directamente para a ilha principal.

Passo Etapa típica
1 Europa – Ásia (por exemplo, Singapura, Tóquio, Hong Kong)
2 Ásia – Port Moresby
3 Port Moresby – Buka ou ilha principal de Bougainville
4 Transfer de barco dentro do arquipélago

A viagem costuma levar dois a três dias, com várias escalas. É precisamente isso que afasta a maioria dos viajantes - e que protege o arquipélago de tudo o que se poderia chamar “escapadinha de fim-de-semana”.

Quanto a alojamento, predominam lodges simples, guesthouses e pensões familiares, não resorts. A água quente não é garantida em todo o lado e a electricidade pode falhar ocasionalmente. Em troca, há contacto directo com anfitriões que, muitas vezes, cultivam a própria terra e servem cozinha local: taro, batata-doce, peixe, legumes e coco em múltiplas versões.

Cultura entre tradição e recomeço

A sociedade de Bougainville é fortemente assente em clãs. Cada grupo preserva os seus cantos, danças, línguas e rituais. Famosos são os sing-sings, celebrações tradicionais repletas de cor, onde pinturas corporais, adornos de penas e padrões nos trajes contam histórias específicas - sobre origens, alianças, mitos e conflitos antigos.

Estes encontros não são montados para turistas; existem para a própria comunidade. Quando um visitante é autorizado a participar, entra num espaço sensível, onde o respeito vale mais do que a fotografia perfeita.

Um produto típico do arquipélago são os cestos de Buka, muitas vezes chamados “Buka-ware”. São feitos de fibras vegetais, escurecidas sobre o fogo e depois entrançadas em cestos finos e resistentes. Para muitas famílias, este artesanato representa um pequeno rendimento extra.

O que pode mudar com a criação do Estado

Com a independência, surgem decisões decisivas: que papel deverá ter a mineração no futuro? Quanto turismo se quer permitir? Que línguas terão estatuto oficial? E como se distribui o poder entre regiões e clãs?

Para quem viaja, isto significa que uma visita agora permite ver um Estado em fase de formação. Os sistemas administrativos ainda estão a ser montados e as formalidades fronteiriças podem mudar por completo em poucos anos. Discute-se muito sobre planos para o futuro, muitas vezes à volta do fogo, diante de casas simples de madeira.

Oportunidade e risco para um paraíso frágil

A independência abre oportunidades importantes para Bougainville, mas traz igualmente riscos. Um governo próprio pode defender melhor interesses locais, por exemplo na protecção ambiental ou na negociação com empresas internacionais. Ao mesmo tempo, um novo Estado precisa de receitas - em geral vindas de matérias-primas, impostos ou turismo.

É aqui que se instala a tensão: recifes de coral, vulcões, florestas tropicais e aves raras tornam as ilhas extremamente atractivas para quem gosta de natureza. Uma expansão sem controlo de hotéis, estradas ou minas danificaria rapidamente essa riqueza. O desafio será crescer com prudência.

Para viajantes com consciência ambiental, isso cria margem de acção: escolher alojamentos geridos localmente, evitar rigorosamente lixo, usar filtros de água em vez de garrafas de plástico e respeitar regras culturais pode ter um impacto positivo. Cada encontro deixa marca - idealmente, a de que um Bougainville sustentável e autodeterminado pode funcionar.

Ao mesmo tempo, a vida aqui continua vulnerável. Tempestades tropicais, erupções vulcânicas, subida do nível do mar e oscilações nos preços globais de matérias-primas afectam um pequeno reino insular de forma muito mais dura do que grandes Estados. A forma como Bougainville conduz o seu recomeço dependerá, no fim, de muitos factores: decisões políticas inteligentes, um relacionamento cauteloso com a natureza - e o respeito que também os poucos visitantes trazem consigo.

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