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Fiéis percorrem centenas de quilómetros com dores e queixam-se da velocidade excessiva dos camiões no IC2. GNR dá prioridade a zonas de maior risco de sinistralidade.

Grupo de pessoas com coletes amarelos caminham ao lado de estrada com viatura da GNR e camião ao fundo.

Fiéis fazem-se à estrada durante centenas de quilómetros, acumulam dores e apontam o excesso de velocidade de camiões no IC2 como um dos principais riscos. A GNR afirma que concentra o patrulhamento nas zonas com maior probabilidade de sinistralidade.

Percursos longos e dores persistentes

O esforço de Cláudia ao caminhar nota-se a olho nu. Queixa-se de dores nos joelhos e tenta aliviá-las avançando com as pernas mais esticadas. Na quinta-feira, seguia há quatro dias consecutivos a pé, acompanhada pelo marido, pela mãe e por Ivo, já na zona de Pombal.

O grupo tinha arrancado na noite do domingo anterior e, no início, José também seguia a par. Contudo, lesionou-se num joelho e acabou por completar o resto do trajecto na autocaravana de apoio, depois de não terem encontrado pontos de assistência no caminho. Ontem, contabilizavam-se cerca de 9100 peregrinos a dirigir-se a Fátima a pé, organizados em 230 grupos registados na plataforma peregrinar.pt.

Vindos de Passos de Ferreira, fizeram 60 quilómetros no primeiro dia e, a partir daí, passaram a cumprir 50 por jornada. "As estradas são péssimas e têm muitas inclinações, e há zonas onde os camiões circulam em excesso de velocidade", lamenta Cláudia, que se estreia em peregrinações. Apesar disso, mantém o ânimo: "Apesar dos nervos e do cansaço, sinto-me bem, graças a Deus. A Nossa Senhora ajuda-me". O marido reforça a crítica e relata falta de presença policial: "Os camiões quase nos deitam abaixo, mas só vimos a GNR em Ermesinde".

João Coelho, em boa forma física, seguia também para cumprir uma promessa a Nossa Senhora, tal como a mulher e a sogra. "Temos muita fé", diz Olga, que usa joelheiras elásticas para atenuar dores musculares. Recorda a primeira peregrinação a pé, há perto de 30 anos, quando o pai avançava a um ritmo muito lento: "Os músculos começaram todos a atrofiar e vi-me grega para lá chegar". Agora, a presença de três jovens no grupo está a impor uma cadência bem mais rápida.

Travessias perigosas

Até ontem, dos 258 grupos registados na peregrinar.pt, só 18 tinham assinalado 88 pontos críticos, segundo o padre Daniel Mendes, do Movimento da Mensagem de Fátima. Na lista constavam 38 travessias perigosas, 18 situações de bermas estreitas ou ausência de passeios, 12 cruzamentos sem semáforos para peões, 11 entradas e saídas de autoestradas e acessos IC, seis descidas, barragens e relevos difíceis, além de três locais onde os peregrinos atravessam sem passadeira.

Perante a crítica de João Coelho sobre a escassez de guardas, o porta-voz da GNR, tenente-coronel Carlos Canatário, responde que não existem recursos para acompanhar todos os grupos ao longo do percurso. "Gostava de ter uma patrulha a cada três quilómetros, mas não é possível, pelo que são direcionadas para as zonas de maior risco", assegura. Explica ainda que, para localizar pontos críticos, a GNR acompanha o que é reportado na peregrinar.pt e deixa várias recomendações, incluindo caminhar em fila e usar coletes refletores.

IC2 entre Pombal e Coimbra sob alerta

O porta-voz identifica o troço do IC2 entre Pombal e Coimbra como "problemática". "Há um historial de acidentes, porque é muito usada por viaturas e peregrinos", afirma.

Em Pelariga, Pombal, a caminhar pela berma nesse segmento, Fátima Sousa seguia com mais cinco amigas e dizia que, apesar de o piso em mau estado provocar trepidação, estava tudo a correr bem. Na sua experiência imediata, o comportamento dos profissionais ao volante não era motivo de queixa: "Os camionistas são muito simpáticos e cautelosos connosco".

Ainda assim, a peregrina de Vila Verde, em Braga, esclarece que, nas 16 vezes em que foi a Fátima a pé, optou sempre por itinerários alternativos e evita caminhar de noite. "Só viemos por aqui, porque vamos dormir a Pombal", justifica. Leva um terço cor-de-rosa ao pescoço como forma de "proteção" e apoia-se em sticks de caminhada. Mantém a ida anual ao Santuário por gratidão: "A fé é algo muito estranho, que não sei explicar. É uma mistura de sentimentos".

Ao contrário das amigas, Fátima Sousa não trazia o colete refletor vestido, por sentir demasiado calor. Situação semelhante acontecia com Marta Lima, de Viana do Castelo, que seguia numa estrada das Meirinhas, em Pombal, com seis amigos. O grupo tem cumprido uma média de 40 quilómetros por dia, dividindo o percurso em etapas e aproveitando fins de semana com feriados para conseguirem não faltar ao trabalho.

Ajudar os outros

"A primeira vez que fui a Fátima fui agradecer, porque a minha mãe tinha estado doente", conta Marta Lima. Nas três deslocações seguintes, a enfermeira decidiu colocar-se ao serviço de outros peregrinos.

Foi o que aconteceu com a amiga Helena Carvalho: há três dias que Marta lhe administrava injetáveis para tratar uma inflamação na canela, que lhe provocava dores e a impedia de andar. Helena queria, ainda assim, cumprir uma promessa feita há 26 anos, depois de ter sido operada a um tumor na cabeça.

Estreante nestas caminhadas, Helena Carvalho relata um momento de grande sobressalto durante o trajecto. "Ia sendo atropelada num passeio muito estreito. Os carros passam a uma grande velocidade e muito perto de nós. Fiquei estática e pensei: "ainda não foi desta", descreve. Marta Lima sublinha que o problema é recorrente: "Há um grande desrespeito pelas pessoas. Devia haver mais policiamento e apoio. Todos os anos há ocorrências graves". E deixa uma crítica concreta ao itinerário seguido: "As faixas do IC2, por onde viemos, deviam ser mais largas, apesar de em alguns locais já terem esse cuidado."

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