Saltar para o conteúdo

Brendon Grimshaw e Moyenne: a ilha que virou um dos menores parques nacionais do mundo

Homem de chapéu acena junto a uma tartaruga gigante numa praia tropical com barco e vegetação ao fundo.

O que parece saído de uma cena de cinema aconteceu mesmo: no início da década de 1960, um britânico chega às Seicheles, dá quase por acaso com uma pequena ilha desabitada e toma uma decisão instintiva que lhe vira a vida do avesso. Durante cinquenta anos, trabalha longe dos holofotes para concretizar um sonho - até transformar um pedaço de terra pedregosa no que hoje é reconhecido como um dos menores parques nacionais do mundo.

Um homem, um impulso, uma ilha

Em 1962, o britânico Brendon Grimshaw viaja para as Seicheles. A intenção inicial é simples: fazer uma pausa ao ritmo do seu trabalho de jornalista. Nessa altura, tem 37 anos e traz um percurso clássico na imprensa regional britânica - começou como moço de recados aos 15 e chegou a director de redacção de jornais de grande dimensão na África Oriental.

Nas ilhas, não leva um grande plano desenhado. Mal conhece o arquipélago, não tem um projecto estruturado, nem investidores, nem uma conta milionária. Até que lhe mostram uma ilha pequena e agreste no oceano Índico: Moyenne, com apenas algumas dezenas de hectares, rochosa, seca, tomada por mato, sem infra-estruturas, sem electricidade, sem porto. Ninguém a quer. Para potenciais investidores, parece não valer nada.

"Mesmo assim, Grimshaw segue o seu instinto: está convencido de que aquela ilha é a certa para ele - e assina o contrato de compra."

Fora as suas poupanças e a sua teimosia, tem pouco mais. O que vem a seguir não é uma fantasia luxuosa de fuga ao mundo, mas décadas de trabalho duro, persistente.

De rocha seca a oásis verde

Quando Grimshaw começa em Moyenne, a ilha assemelha-se mais a um jardim abandonado do que a um paraíso. Há pouca sombra, quase nenhum solo fértil, apenas arbustos espinhosos, encostas íngremes e algumas palmeiras de coco. Para beber, só o que se consegue apanhar ou transportar de barco.

Ainda assim, mete mãos à obra. Sem construtora e sem maquinaria pesada - apenas paciência e continuidade. Corta mato espinhoso, abre trilhos, carrega mudas encosta acima e planta árvores autóctones e outras úteis. Durante anos, escava pequenas plataformas nas encostas para reter terra e impedir que a água da chuva escorra sem efeito.

Aos poucos, forma-se uma copa densa. As aves regressam, os insectos encontram mais alimento e o solo ganha humidade. Do rochedo árido começa a nascer um verdadeiro bosque. Mais tarde, quem o visita descreve o lugar como uma espécie de selva em miniatura.

Como chegaram as tartarugas-gigantes

Um ponto de viragem em Moyenne são as tartarugas-gigantes das Seicheles. Nas ilhas principais, a ocupação humana e a caça empurraram-nas para números muito reduzidos. Grimshaw percebe que a sua ilha pode servir de refúgio seguro para estes répteis ancestrais.

Assim, trata de obter animais de outras ilhas, recupera tartarugas feridas ou debilitadas e liberta-as em Moyenne. Com o tempo, a população aumenta de forma clara. Os animais pesados avançam devagar pelos trilhos, comem ervas e folhas e, em pouco tempo, passam a marcar por completo a paisagem.

"Moyenne transforma-se num museu vivo ao ar livre de tartarugas - um refúgio onde podem envelhecer sem caça e sem trânsito."

Para lá das tartarugas, instalam-se cada vez mais espécies endémicas de plantas e animais - isto é, espécies que só existem nas Seicheles. A reflorestação cria micro-habitats onde aves raras, insectos e répteis encontram um novo lar.

Conflito com investidores: propostas de milhões recusadas

Com o passar dos anos, o interesse pelas Seicheles cresce. Surgem resorts de luxo, e compradores endinheirados garantem ilhas privadas para construir moradias. Moyenne também entra no radar.

Grimshaw recebe propostas de promotores imobiliários que, segundo ele, lhe pagariam milhões de dólares. Moradias de luxo, heliporto, praias privadas - tudo isso passa a parecer possível, pelo menos no papel.

O britânico recusa. Para ele, Moyenne deixou há muito de ser um activo para especulação e tornou-se a obra da sua vida. Passou incontáveis dias na ilha com pá, regador e machete às costas. As tartarugas reconhecem-no, e ele conhece cada árvore. A ideia de converter o local num clube privado exclusivo não combina com o que, na sua visão, a ilha deveria ser.

"Grimshaw escolhe não aceitar dinheiro rápido - e aposta na ideia de transformar Moyenne num espaço natural protegido para todos."

De propriedade privada a minúsculo parque nacional

Para garantir que o trabalho não desaparece com a sua morte, Grimshaw negoceia com o Estado das Seicheles. O objectivo é que a ilha fique oficialmente protegida e que possa continuar, de forma permanente, como reserva natural.

No fim, surge uma solução pouco comum: o projecto privado de um ex-jornalista passa a ser um parque nacional oficialmente reconhecido - um dos mais pequenos do mundo. A ilha mantém-se em grande parte natural, mas com acesso regulado. Visitantes de um dia podem desembarcar, percorrer trilhos, ver tartarugas quase ao nível dos olhos e sentir o contraste com o turismo de massas associado aos grandes resorts.

Para as Seicheles, este mini-parque nacional traz várias vantagens:

  • Conservação da natureza: refúgio para espécies ameaçadas, sobretudo tartarugas-gigantes.
  • Turismo: um destino de excursão diferente, que foge às propostas clássicas de praia.
  • Educação: os visitantes observam de perto como décadas de cuidados influenciam um ecossistema.
  • Efeito de exemplo: prova de que áreas pequenas podem ter enorme valor ecológico.

Quem era o homem que salvou uma ilha?

Para perceber a decisão de Grimshaw, ajuda olhar para o seu percurso. Natural de Yorkshire, em Inglaterra, sai cedo da escola, entra por caminhos indirectos numa redacção local e vai subindo. Mais tarde, torna-se director de redacção de jornais na África Oriental, acompanhando a fase colonial, movimentos de independência e grandes mudanças políticas.

Nos seus melhores anos, trabalha perto do centro das notícias, conversa com chefes de Estado como Julius Nyerere, na Tanzânia, viaja muito e vive ao ritmo acelerado do mundo dos media. Ao mesmo tempo, sente que a situação política e o sector jornalístico estão a mudar. Carreiras deslocam-se, e os centros de influência também.

Quando chega às Seicheles, a ideia de ter uma ilha não é um sonho de infância alimentado durante décadas. Surge, antes, como resposta à sensação de que um ciclo de vida está a terminar. Moyenne torna-se o oposto de reuniões de redacção, manchetes e pressão constante.

O que Moyenne ensina à conservação da natureza

A história de Grimshaw mostra até que ponto uma única pessoa pode alterar uma paisagem quando pensa a longo prazo. Em vez de apostar numa reflorestação rápida com espécies exóticas, optou por vegetação de crescimento mais lento e adaptada ao lugar. Assim, reduziu o risco de as novas plantas desequilibrarem o frágil ecossistema insular.

O caso de Moyenne também evidencia o valor de áreas pequenas, mas bem protegidas, para a biodiversidade. A conservação costuma focar-se em parques nacionais gigantes. Mini-reservas como Moyenne funcionam como complemento útil, sobretudo em regiões com grande diversidade e pouco espaço disponível.

Viajar até Moyenne: um destino de sonho com regras

Hoje, quem faz férias nas Seicheles pode marcar uma excursão de um dia a Moyenne. Normalmente, os barcos partem da ilha principal, Mahé, ou da ilha próxima de Sainte Anne. No local, um percurso circular conduz os visitantes pelo bosque, passa por miradouros e pelas célebres tartarugas.

Quem quiser visitar a ilha deve ter em conta algumas regras:

  • Manter distância respeitosa dos animais, sobretudo de tartarugas em fase de nidificação.
  • Não deixar lixo, nem mesmo “resíduos orgânicos” como cascas de banana.
  • Não sair dos trilhos, para não danificar plantas jovens.
  • Não levar plantas, sementes ou animais.

Estas normas podem parecer rígidas, mas são o que preserva o carácter da ilha. Porque em ilhas tão pequenas, intervenções mínimas - como uma semente introduzida ou uma garrafa de plástico atirada ao chão - podem ter consequências maiores do que numa floresta extensa.

Porque os mini-parques nacionais podem tornar-se mais importantes

Olhar para Moyenne levanta uma questão: fará sentido criar mais parques tão pequenos? Em regiões densamente habitadas ou muito exploradas pelo turismo, é muitas vezes difícil reservar grandes áreas para protecção. Ilhas pequenas, antigas zonas militares, terrenos abandonados ou manchas de floresta poderiam ser aproveitados de forma semelhante.

Cuidado continuado, regras de protecção claras e uma gestão moderada de visitantes podem transformar pouca área em refúgios valiosos. O exemplo de Grimshaw sugere que iniciativas individuais conseguem, de facto, influenciar políticas e autoridades - pelo menos onde os Estados estão abertos a cooperar em matéria de conservação.

Para viajantes que procuram mais do que praia e buffet de hotel, lugares assim oferecem outra forma de luxo: silêncio, proximidade à vida selvagem, a sensação de entrar numa experiência de natureza que cresceu ao longo do tempo, sem encenação. E a noção de que o bilhete de entrada ajuda a manter vivo um trabalho de uma vida inteira.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário