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Túmulos romanos sob a Via Ostiense no sul de Roma revelam um complexo funerário

Arqueólogo examina pintura mural em escavação arqueológica junto a ruas movimentadas.

Investigadores identificaram, sob uma rua moderna no sul de Roma, um conjunto até agora desconhecido de túmulos romanos, com decoração pintada preservada e figuras de valor simbólico.

A descoberta revela um complexo funerário planeado, que mais tarde deu lugar a um cemitério simples, registando ao longo do tempo uma mudança na forma como as pessoas assinalavam a morte.

Enterrados sob uma via antiga

Sob a Via Ostiense, uma das principais estradas antigas de saída de Roma, surgiu um agrupamento compacto de túmulos em tijolo, imediatamente abaixo da cota da via atual.

O levantamento do local foi conduzido pela arqueóloga Diletta Menghinello, da Superintendência Especial de Arqueologia, Belas-Artes e Paisagem de Roma.

Menghinello registou vários edifícios alinhados, implantados muito próximos entre si e organizados em torno de um espaço central comum.

Esta configuração sugere que os enterramentos não eram casos isolados, mas parte de um desenho coordenado - provavelmente associado a uma comunidade ou a um grupo específico.

Como há estruturas adicionais ainda parcialmente soterradas, a extensão total e a organização interna deste núcleo funerário continuam dependentes de escavações futuras.

Imagens de morte e memória

Nas paredes das câmaras ainda se observa cor: faixas pintadas, motivos vegetais e molduras de estuque resistiram durante séculos no subsolo.

Dentro dessas molduras, as figuras pareciam ligar a morte à resistência, à proteção e à esperança de triunfo para lá dela.

O que resta da pintura não parece ter sido executado de forma casual, já que as imagens repetem símbolos usados pelos romanos para enquadrar uma morte honrada.

Como apenas parte de cada compartimento está exposta, a evidência mais legível, por enquanto, é sobretudo visual e não individual.

Em pleno interior dos columbários

Os primeiros indícios apontam para câmaras do tipo columbário, espaços funerários com nichos destinados a acolher urnas cinerárias.

Na Necrópole Ostiense, a cremação foi durante muito tempo dominante, antes de o enterramento de corpo inteiro se tornar mais frequente nos séculos finais do período imperial.

“A escavação dos túmulos, muito provavelmente identificáveis como columbários, salas com nichos concebidos para albergar urnas cinerárias, ainda está numa fase preliminar”, disse Menghinello.

Se as camadas superiores confirmarem um uso misto, este setor poderá registar, num único quarteirão funerário compacto, uma transição relevante nas práticas mortuárias.

O luto como acontecimento comunitário

Junto à antiga via, a equipa detetou também uma sala com extremidade curva e outra grande divisão em tijolo onde subsistem vestígios de mosaico.

Espaços deste tipo podem ter servido para banquetes funerários, uma vez que os romanos se reuniam frequentemente perto dos túmulos para comer, recordar e reforçar laços.

Na Ostiense, banquetes mais antigos realizavam-se em terraços sobre túmulos semelhantes, mostrando como a comemoração podia conjugar arquitetura e alimentação.

Até que a escavação avance em profundidade, estas salas permanecem hipóteses plausíveis e não certezas, mas ampliam a dimensão social deste cemitério.

Do monumental ao modesto

Por trás das estruturas decoradas, uma longa parede de blocos de tufo assinala um cemitério posterior com um aspeto claramente mais pobre.

Ali, os bens de acompanhamento eram raros e os enterramentos em fossas simples surgem muito juntos, sugerindo um uso intenso por pessoas com menos recursos.

Depois de os túmulos imperiais deixarem de ser cuidados ou de serem despojados, uma comunidade mais modesta voltou a utilizar o mesmo terreno.

Assim, uma única parcela de solo conserva um contraste social marcado, sem necessidade de uma explicação escrita.

Reconstituir vidas a partir dos vestígios

Ainda não surgiram nomes, mas inscrições, ossos e pequenos objetos podem vir a transformar a arquitetura em biografia.

Os restos ósseos permitem inferir idade, lesões, dieta e doença, porque o corpo regista o desgaste da vida quotidiana.

Para os estratos médios e baixos de Roma, este tipo de prova é particularmente valioso, já que os relatos escritos tendem a privilegiar enterramentos de elites.

Uma escavação mais completa poderá, por isso, tornar este cemitério relevante não apenas para a história da arte, mas também para a vida comum dos romanos.

Expansão do mapa funerário de Roma

Este setor também amplia o mapeamento de uma zona funerária que, durante séculos, se estendeu ao longo da estrada que ligava Roma ao seu antigo porto de Óstia.

Partes visíveis do Sepolcreto, um trecho preservado desta necrópole a sul do centro de Roma, já mostram a passagem gradual da cremação para o enterramento de corpo inteiro.

Como o novo conjunto se encontra a sul de Roma, perto de São Paulo Fora de Muros, poderá ajudar a definir os limites internos do cemitério.

Isto é relevante para compreender a implantação, porque os arqueólogos conseguem ler de que modo estradas, túmulos e pátios abertos organizavam o movimento entre os mortos.

O sistema de arqueologia preventiva

Roma chegou a estes túmulos através da arqueologia preventiva, o procedimento legal que testa um terreno de obra antes de as fundações apagarem evidência soterrada.

Este sistema existe porque estradas, habitação e redes técnicas podem cortar camadas antigas muito antes de alguém suspeitar do que está por baixo.

As orientações em Itália encaram hoje estas intervenções como uma forma de proteger achados, rever projetos ou, em certos casos, integrar ruínas em novos empreendimentos.

Na Via Ostiense, a escavação já fez mais do que eliminar um obstáculo: reescreveu um fragmento da própria rua.

A escavação ainda promete novas descobertas

Os planeadores urbanos enfrentam agora um dilema recorrente em Roma: como construir para o presente sem voltar a soterrar aquilo que a cidade acaba de revelar.

Um aviso oficial refere que a residência de estudantes pode avançar, desde que os vestígios sejam protegidos, estudados e tornados acessíveis.

“Esta descoberta confirma a extraordinária complexidade do património arqueológico da cidade, que continua a emergir mesmo em contextos afetados pela transformação urbana”, disse Daniela Porro, Superintendente Especial de Roma.

A abertura ao público daria a Roma mais do que outra escavação vedada: permitiria que bairros vivos incorporassem um passado recém-trazido à superfície.

O que se encontra sob a Via Ostiense não é apenas uma fila de túmulos, mas uma história comprimida das mudanças romanas perante a morte.

Escavações adicionais poderão acrescentar nomes e objetos; ainda assim, o local já mostra como memória, dinheiro e crescimento urbano colidiram no subsolo.

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