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Waikīkī e o novo risco de inundações contaminadas

Homem com prancha de surf atravessa área alagada perto de casas com placa de aviso de risco de inundação.

Waikīkī é famosa pelas praias, pelos hotéis e pelo fluxo constante de visitantes. À primeira vista, parece um destino feito para descansar. No entanto, por detrás desse cenário, está a ganhar força um problema menos visível: as inundações estão a mudar e tornaram-se mais complexas - e também mais perigosas.

Um novo estudo indica que já não se trata apenas de chuva intensa ou de grandes tempestades. A subida do nível do mar, a degradação dos sistemas de drenagem e a água poluída passaram a fazer parte da equação.

Em conjunto, estes factores estão a criar um novo tipo de risco de inundação, com impactos tanto no ambiente como na saúde pública.

Mudança nos factores que causam inundações

Durante anos, a maioria das pessoas associou as inundações sobretudo a períodos de chuva forte. Em Waikīkī, porém, essa lógica está a começar a alterar-se. Hoje, a inundação é provocada por uma combinação de precipitação, marés oceânicas e até água a subir a partir do subsolo.

“Os nossos resultados deixam claro que as estratégias actuais de gestão de cheias em Waikīkī são incompletas”, afirmou Kayla Yamamoto, autora principal do estudo, da University of Hawai‘i at Mānoa.

“A maior parte do planeamento concentra-se nos danos à superfície e nas perdas económicas causadas por tempestades, mas ignora em grande medida a dimensão da contaminação.”

A contaminação está a aumentar rapidamente

“Os nossos resultados mostram que as inundações contaminadas vão tornar-se mais frequentes, mais extensas e, com o tempo, uma ocorrência diária, em vez de algo desencadeado por tempestades. Actualmente, não existem estratégias de gestão eficazes para lidar com isto”, acrescentou Yamamoto.

À medida que o nível do mar sobe, as marés passam a ter um peso maior. No futuro, a inundação pode acontecer mesmo em dias calmos, sem qualquer tempestade.

Isto significa que as cidades já não podem depender apenas de sistemas concebidos para escoar chuva.

Falhas no sistema de drenagem

Waikīkī assenta num princípio simples: a água da chuva entra nas sarjetas, segue para um canal e, depois, é descarregada no oceano. Só que este mecanismo apenas funciona quando o nível do mar está mais baixo do que o da cidade.

Com a subida do nível do mar, esse equilíbrio deixa de existir. A água no canal pode ficar acima do nível das condutas, fazendo com que o fluxo se inverta e a água regresse às ruas.

“O que encontrámos foi que, durante precipitação extrema como a que temos vivido, marés altas e níveis de água elevados no Ala Wai podem combinar-se e criar condições em que água contaminada volta a entrar em ruas e passeios em zonas baixas”, disse a co-autora do estudo Shellie Habel.

“À medida que o nível do mar sobe, será necessária menos precipitação extrema e marés menos elevadas para provocar inundações semelhantes no futuro.”

Em alguns casos, as próprias sarjetas podem expelir água para cima, como pequenas fontes. E, por vezes, só as marés altas bastam para bloquear o escoamento, mesmo sem chuva.

À medida que o oceano continua a subir, este tipo de falhas tenderá a acontecer com mais frequência.

A água das cheias transporta esgotos

A água das inundações em Waikīkī não é limpa. Uma parte significativa vem do Ala Wai Canal, que recebe o escoamento superficial da cidade. Essa água pode conter esgotos, bactérias e outros poluentes.

Quando ocorre inundação, essa água contaminada espalha-se por ruas e espaços públicos. Pessoas a caminhar, a conduzir ou a trabalhar nessas áreas podem entrar em contacto com ela.

A chuva agrava a situação: remexe os poluentes no canal e aumenta a quantidade de microrganismos nocivos presentes na água.

Assim, os momentos em que a inundação é mais evidente são também aqueles em que pode ser mais perigosa.

As águas subterrâneas agravam a inundação

Há ainda uma origem de inundação que é difícil de observar: vem de baixo, do subsolo.

Em áreas baixas como Waikīkī, o lençol freático está perto da superfície. Quando o nível do mar sobe, a água subterrânea sobe também.

Com o tempo, essa água pode infiltrar-se e emergir à superfície, invadindo ruas mesmo sem chover. E, quando o solo já está saturado, deixa de conseguir absorver mais água, o que faz com que a inundação se acumule rapidamente.

Essa água subterrânea também pode transportar poluição proveniente de sistemas de esgotos antigos e com fugas. Ou seja, as cheias podem trazer contaminantes tanto da superfície como do subsolo.

Inundações tóxicas em cidades costeiras

O estudo traça um cenário claro do que pode acontecer a seguir.

Com pequenos aumentos do nível do mar, os sistemas de drenagem começarão a falhar com maior regularidade. Com aumentos mais expressivos, as inundações poderão tornar-se generalizadas e ocorrer durante as marés altas normais.

Ao mesmo tempo, a chuva perderá importância relativa. As marés e as águas subterrâneas passarão a ser os principais motores das inundações. Em certos casos, grandes partes de Waikīkī podem inundar mesmo em dias secos.

“O nosso enquadramento de modelação é transferível, e esperamos que este estudo sirva de alerta para modernizar as infra-estruturas de drenagem de águas pluviais e de águas residuais, integrar o risco de contaminação no planeamento de cheias costeiras e criar sistemas de aviso prévio antes de esses limiares serem ultrapassados”, salientou Yamamoto.

Isto significa que as cheias poderão deixar de ser acontecimentos raros e transformar-se em algo muito mais comum.

Repensar a resiliência urbana

Estas conclusões apontam para um problema mais amplo. Gerir cheias não é apenas impedir a entrada de água; é também perceber de onde vem essa água e o que transporta.

As cidades terão de modernizar a drenagem, reparar redes de esgotos envelhecidas e acompanhar a qualidade da água com maior rigor. Precisarão igualmente de melhores ferramentas para prever como diferentes tipos de inundação interagem entre si.

Waikīkī não é um caso isolado. Muitas cidades costeiras enfrentam desafios semelhantes. O que está a acontecer aqui funciona como aviso: as inundações já não são apenas água a subir - incluem também os riscos ocultos que a acompanham.

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