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O Rio Amarelo e os lagos suspensos de Hongze e Nansi

Rio com barco e escavadora na margem, campos verdes e casas ao fundo numa paisagem rural ao amanhecer.

O Rio Amarelo é conhecido por um dado pouco reconfortante: em grande parte do seu troço inferior, a água corre acima do nível dos terrenos à volta. Ao longo de séculos, os depósitos de sedimentos foram elevando o leito do rio, até ao ponto em que os diques passaram a ser a única barreira a manter o curso de água contido.

Até agora, porém, ninguém tinha verificado se o mesmo tipo de processo estaria também a elevar outros corpos de água próximos. Duas das maiores massas de água doce do leste da China encontram-se na mesma região, e um novo estudo reuniu evidência sobre o que ali acontece.

Lagos acima do nível do terreno

Hongwu Tang, engenheiro hidráulico na Hohai University (HHU), em Nanjing, liderou a equipa que examinou dados do Lago Hongze e do Lago Nansi, ambos estendidos pelas planícies junto ao troço inferior do Rio Amarelo.

Para isso, combinaram registos históricos, amostras de sedimentos perfuradas no fundo dos lagos e modelos computacionais. A análise mostrou que, em ambos os casos, a água se mantém a cotas superiores às das vilas e dos campos agrícolas adjacentes.

Foi este cenário improvável que levou os autores a descreverem um tipo de lago que, até aqui, não tinha uma designação formal na área - um lago suspenso.

O pressuposto das montanhas

A maioria dos lagos de barreira forma-se em vales montanhosos, quando um deslizamento de terras faz cair rocha e solo para dentro de um rio e bloqueia o escoamento.

A água acumula-se atrás desse tampão natural, por vezes durante semanas, por vezes durante décadas.

Em geologia, estes lagos são famosos porque tendem a falhar de forma violenta. Uma revisão recente descreve o padrão mais comum: o nível da água sobe acima da barragem, a estrutura cede e uma massa de água e sedimentos avança a jusante.

Quando dois rios se encontram

Hongze e Nansi, contudo, situam-se em terreno plano. Não há montanhas nas imediações. Não existe um deslizamento de terras que os pudesse ter originado. Em vez disso, a equipa de Tang atribuiu a sua formação a um processo de longa duração chamado captura fluvial.

O Rio Amarelo é, há muito, o grande rio mais carregado de lama do planeta. No último milénio, foi repetidamente abandonando o seu canal - fenómeno a que os geólogos chamam avulsão - e invadindo rios mais pequenos, como o Huai.

Depois de se impor, mantinha-se no novo traçado. A bacia do rio menor acabava então por se encher de sedimentos do Rio Amarelo e o que antes drenava livremente deixava de conseguir escoar.

O sedimento do rio faz o trabalho

O Rio Amarelo não transporta apenas água: despeja quantidades enormes de silte, arrancado ao Planalto de Loess a montante.

Quando esse caudal denso em sedimentos entra num sistema fluvial mais plano e mais lento, a carga deposita-se - e depressa.

Um artigo separado acompanha o quão invulgar é este comportamento dos sedimentos. O desfasamento entre os dois rios - um muito turvo, outro mais claro - cria a armadilha.

Os sedimentos parecem ter-se acumulado na zona de confluência, fazendo recuar as águas a montante.

Ler o fundo do lago

Para testar a hipótese, a equipa perfurou 112 colunas de material nos fundos dos lagos e nas planícies circundantes, cada uma funcionando como um registo do que ali foi sendo depositado ao longo do tempo. A lama do Rio Amarelo surgia, camada após camada.

As simulações por computador reproduziram o mesmo padrão. Até este estudo, ninguém tinha explicado de forma clara o mecanismo pelo qual um rio carregado de sedimentos consegue construir um lago de barreira duradouro a centenas de quilómetros de qualquer zona montanhosa.

Os lagos não eram casos isolados. Eram o resultado de um processo que os geólogos ainda não tinham nomeado. Tratava-se de um trabalho fluvial lento e persistente, repetido silenciosamente ao longo de um trecho de cerca de 160 km no baixo Rio Amarelo.

As mãos humanas também intervieram

O processo natural formou os lagos. Os aterros e diques transformaram-nos em algo ainda mais estranho.

Ao longo de séculos, responsáveis locais e engenheiros foram elevando sucessivamente as estruturas de contenção para manter a água no lugar, à medida que os fundos iam subindo com o assoreamento.

Cada geração construía mais alto. O resultado é aquilo que o artigo chama um lago suspenso - água que repousa visivelmente acima da planície, retida por muralhas. E o fundo continua a subir à medida que novos sedimentos se depositam.

Perigo e proveito

O problema de um lago suspenso é evidente. Se os diques falharem, a água não se infiltra devagar - precipita-se encosta abaixo, atravessando campos agrícolas habitados.

Rupturas anteriores ao longo do baixo Rio Amarelo já mataram centenas de milhares de pessoas em eventos únicos.

A outra face é menos imediata. Quando bem geridos, estes reservatórios elevados conseguem armazenar e redistribuir água por regiões planas onde não existem outros grandes lagos nas proximidades. A bacia do Huai alberga cerca de 165 milhões de pessoas que dependem desse abastecimento.

O grupo de Tang defende que estes lagos devem ser reconhecidos simultaneamente como risco e como recurso - não como uma coisa ou outra - e que a gestão deve partir dessa dupla identidade, em vez de a tentar contrariar.

O que isto muda

Pela primeira vez, os hidrólogos dispõem de um modelo funcional para explicar como se formam lagos de barreira em terreno plano, longe de qualquer montanha. Isso altera o que se deve procurar noutros locais.

Qualquer planície onde um rio muito assoreado corra ao lado de outro mais limpo e mais lento reúne, em escala reduzida, a mesma configuração; e trabalhos anteriores já tinham identificado dinâmicas semelhantes em toda a bacia do Huai.

Com este entendimento, os engenheiros podem planear a manutenção dos diques e a drenagem de emergência com base num processo conhecido, em vez de agirem por tentativa e erro. As comunidades a jusante ganham também a capacidade de modelar cenários de falha com números mais rigorosos.

Assim, os lagos que vão subindo discretamente acima da planície não são excentricidades: são a consequência de um trabalho fluvial lento e persistente - um trabalho que os humanos vêm ajudando, há séculos, sem o perceberem por completo.

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